parecia-nao-pisar-o-chaoO autor de toda uma literatura tinha que gerar uma ingente quantidade de escritos exegéticos –é provável que Fernando Pessoa tenha sido o escritor com maior poder de convocatória crítica, e não só, em todas as línguas e a nível planetário durante o último quartel do século XX. Por um lado, para além do que publicou em vida, algo mais do que certa lenda propalou, no seu Espólio ficaram 27.543 peças cuja catalogação iniciara a Biblioteca Nacional de Lisboa e retomou depois a Equipa Pessoa. Pelo outro, e especialmente nas últimas décadas do século passado, falou-se sem parar sobre ele, escreveu-se, realizaram-se programas de televisão e exposições monográficas sobre a sua figura e a sua obra por todas as partes do mundo. A quantidade de países que de diversos modos, da antologia mais simples às obras de erudição mais complexas, conhecem alguma das suas vertentes, seja ocultismo, filosofia, sociologia, astronomia, teoria política, crítica literária ou criação poética, é em igual medida enorme. E, mesmo assim, na bibliografia que se lhe refere cabe com toda honestidade um livro como o presente, porque a dimensão mítica que o fenómeno Pessoa alcançou reclama sempre a atenção do público para o ser humano que está por trás. Falta precisamente o que aqui se apresenta por junto, e que costuma aparecer nas marginálias dispersas dos volumes especializados de tema pessoano ou notas cronobiográficas detalhadas.

Há uma primeira surpresa que pode causar o facto de outro escritor e professor de Ciência Política e da Administração (Universidade Autónoma de Madrid), como é Carlos Taibo, responsável por títulos de referência nomeadamente no que tem a ver com a Europa do Leste e a globalização, se debruçar sobre Pessoa. Mas talvez só alguém como ele pudesse lançar um olhar assim profícuo –partindo de um distante “convite insólito”, que em breve ele próprio explica– para admirar-nos pelo que de verdade importa: o modo de debruçar-se e os resultados. Não procurou na sua paisagem predileta o alvo político, fugiu da já nutrida crítica literária, esquivou os rios de tinta que correm por todas aquelas grandes categorias outras que andam nas bibliografias de todos os países. Tentou apenas aproximar-se do Fernando António Nogueira Pessoa humano, mas escolheu cuidadosamente determinados enquadramentos para dar-nos um retrato do artista numa intimidade selecta.

E já que evocamos fotos (a que dedica, por acaso, um dos ensaios no livro), falemos também do afortunado título: a primeira metade remete bem para o paradoxo da imagem do poeta, a um tempo fragilidade humana e evanescência mítica –que tão bem evoca essa divulgada estampa fotográfica na Baixa lisboeta, tornada ícone mundialmente famoso. A segunda metade do título remete sem equívocos para o que se encerra nas páginas com precisão numerológica, no pragmático dos agrupamentos mas também no incógnito em que toda vida singular se desagrega para o plural. É um título tão eloquente como aquela cena em que o patrão de Bernardo Soares decide um dia que todos os seus empregados devem fazer-se uma foto, e este contempla depois a sua cara anónima e vulgar, uma aparência física que não corresponde em nada àquele que escreve o livro. E Eloquência não desentendida (exatamente 13 ensaios sobre as vidas) do rigor que se vai aplicar nessa tentativa de descobrir que pessoa plural, multifacetada pelos afazeres quotidianos, se corresponde com o Pessoa singular, endeusado pela apreciação póstuma da sua produção artística. Numa palavra, para além de óculos, chapéu, silhueta banal de empregado de escritório, signos que às vezes até apareceram como elementos isolados de representação simbólica, está alguém aí? Quem foi e como foi essa pessoa em concreto, para além do deslumbramento de toda a literatura que escreveu?

Pode-se garantir novo deslumbramento nas páginas que seguem, porque se trata de reverter o esvaziamento daqueles signos representativos a que foi sendo reduzido Pessoa, e porque examinar com atenção o seu aspeto físico, as suas casas e amores, a família e os amigos, as viagens e as línguas, o seu sentido do humor, os trabalhos, a fama, a arca dos papéis, enfim, os múltiplos elementos que acima chamamos de marginálias inencontráveis por junto, e aqui investigadas com o suficiente fundamento como para não estragar a leitura agradável, é uma viagem que a curiosidade intelectual e humana sempre agradece.

Resenhado por Carlos Quiroga, [Escairom (Terra de Lemos), 1961]

FICHA TÉCNICA AUTOR:

Ano: 2010

Capa brochada

13 x 24 cm

580 páginas

ISBN: 978-84-87305-35-1

PVP: 17 €

Diagrama: Minho Media SL

Versom em língua portuguesa: Fernando Vasquez Corredoira

Notas: Ernesto Vasquez Souza e Fernando Vasquez Corredoira

Desenho de capa: Sacauntos

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Alfonso Daniel Manuel Rodríguez Castelao (1886-1950) é uma das figuras mais importantes do nacionalismo galego. Castelao foi um intelectual comprometido com a terra e com o país. Na sua pessoa reúnem-se as facetas de narrador, ensaísta, dramaturgo, desenhador e político, o que o tornou a figura mais importante da cultura galega do século XX…

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