José Luís Rodríguez nos trilhos da língua 8 Maio, 2020 – Publicado em: Através da Língua, Entrevistas

Apresentamos a entrevista que fez o Valentim Fagim para o Portal Galego da Língua a José Luís Rodríguez.

A Através Editora inaugurou o Ano Carvalho Calero com um livro de conversas com um dos seus discípulos mais relevantes na questione della lingua na Galiza. Este livro foi concebido não apenas como uma homenagem a José Luís Rodríguez, mas como um texto que permita encontrar chaves para entender o passado e construirmos o presente.

capa_jl

capa do livro

Na contracapa do livro aparece este texto:«Entre Rodrigues Lapa e Carvalho Calero, está José Luís Rodríguez, triangulando umha história que determina o nosso presente e o do País». Em que medida é o acaso o que nos leva a estas geometrias ou em que medida é a nossa vontade?

É umha pergunta com um fundo um bocado filosófico. Mas, pondo de parte o papel que se me atribui nessa frase, que é desmedido, o que sim parece fruto do acaso, ou quem sabe se do destino, é eu ter coincidido com estes dous professores, ter desenvolvido umha relaçom de amizade com eles, apesar da diferença de anos e do meu caráter inicialmente discipular. As cousas surgem por vezes por si sós. Neste caso, nunca houvo nada de planificado, antes polo contrário, pois muitas vezes me pesa nom ter sido inteiramente consciente, desde o início, da enorme estatura inteletual desses dous vultos das nossas letras, daquém e dalém da raia, e do privilégio que supunha para mim conhecê-los e tratá-los. Por isso, tenho de afirmar que os deuses forom benévolos comigo.

Há pessoas que desde muito cedo sentem por onde devem rumar profissionalmente… e nom só. Quando surge na tua vida o horizonte filológico? Havia mais possibilidades ou era esta a Rota?

Estamos a falar de vocaçons e/ou de percursos profissionais. Nom duvido que a vocaçom deve orientar, por cima de qualquer outro critério, os nossos rumos profissionais, embora determinados indicadores (prestígio social, saídas profissionais, etc.) pareçam desaconselhá-los. O problema surge quando nos sentimos chamados por mais de um caminho, que nos atraem de modo similar. Pessoalmente, no liceu escolhim letras, mas nom me sentia incómodo com as ciências. Depois, um horizonte filológico, mas a História tivo também grande seduçom para mim. Finalmente, especializei-me na área de conhecimento da filologia galego-portuguesa, mas poderia ter feito, igualmente, qualquer outra filologia. Em casos assim, a escolha última depende por vezes de questons mínimas: um professor, a opçom dos amigos, umha viagem a Portugal, etc., etc.

A tua biografia ligada à Faculdade de Filologia na Universidade de Santiago abrange várias décadas. Olhando agora para atrás, na perspetiva da jubilaçom, como valorizas o que deste e o que recebeste?

Difícil resposta, a que se me pede, para o fazer brevemente. Realizei o curso de filologia românica, seçom de espanhol, formando-me nos estudos filológicos, com docentes que lembro com afeto, aplicados sobretudo ao espanhol, área de que cheguei a ser professor vários anos na USC. Mas depois, no mundo galego-português, em que me acabei inserindo, na verdade fum um autodidata, como aliás a maior parte dos meus colegas, polo carácter embrionário destes estudos entre nós, de que fomos autênticos fundadores. Nom sei muito bem o que dei. Sei que tentei transmitir amor, entusiasmo, polas matérias que lecionava, porque eu assim o sentia. Nom sei se algo conseguim. Quanto a investigaçom, por exemplo, tenho a sensaçom incómoda de ter deixado no meu tinteiro ainda demasiada tinta. Mas as cousas forom assim, e nem sempre podemos escolher.

De esquerda para direita: Aracéli Herrero, Aurora Marco, Ricardo Carvalho Calero, Helena Alvaredo e José Luís Rodriguez. Seminário Luso Galaico do VII Centenário do Foral de Caminha (19-21 de Outubro de 1984)

De esquerda para direita: Aracéli Herrero, Aurora Marco, Ricardo Carvalho Calero, Helena Alvaredo e José Luís Rodriguez. Seminário Luso Galaico do VII Centenário do Foral de Caminha (19-21 de Outubro de 1984)

No mundo galego-português, em que me acabei inserindo, na verdade fum um autodidata, como aliás a maior parte dos meus colegas, polo carácter embrionário destes estudos entre nós, de que fomos autênticos fundadores. Nom sei muito bem o que dei. Sei que tentei transmitir amor, entusiasmo, polas matérias que lecionava, porque eu assim o sentia.

Sob a tua docência passaram muitas gerações de estudantes desde os anos 70 até há uns anos. Há algum tipo de contraste entre as turmas dos diferentes momentos históricos? Quais era as suas motivações?

– Claro que há diferenças! Para já, nos meus inícios as turmas eram numerosas, por cima do centenar de alunos; nos últimos anos, um par de dezenas, ou menos. Nos anos 70 e 80 junto com alunos fortemente vocacionados, que sempre houvo, também havia outros que procuravam umha saída profissional que, na altura, o ensino oferecia (de galego, sobretudo), o que, diga-se de passagem, nom estou a criticar, pois acho-o totalmente legítimo. Já diziam os clássicos “Primum vivere, deinde philosophare”, aforismo que se pode aplicar a este caso. Outro aspeto, o aluno de antes parecia-me mais reivindicativo, mais participativo que o de agora (de há pouco, polo menos) na dinâmica docente. Há quem diga também o atual é mais competitivo e menos solidário, mas faltam-me elementos para o assegurar ou negar.

José Luís viveu a eclosom da estratégia reintegracionista para a nossa língua. Foi mesmo um eclodir ou um derivar, um transitar?

Creio que foi um eclodir. Quando Rodrigues Lapa publica em 1973 “A recuperaçao literária do galego”, para umha imensa maioria, em que me incluo, a sua proposta era umha novidade absoluta. Depois, com o decorrer do tempo, descobrimos os antecedentes em toda a história do galeguismo, da filologia românica, da filologia hispânica. Lembro de umha aluna, antirreintegracionista convicta, mas devota de Castelao, ter-me confessado que se sentia desconsolada ao ler o Sempre en Galiza e ver que Castelao era reintegracionista… Enfim, o próprio Rodrigues Lapa, já 40 anos antes, em 1933, se tinha pronunciado sobre a substancial unidade galego-luso-brasileira e sobre a necessidade de umha ortografia no essencial comum. O grupo de Nós, através da própria revista, era da mesma opiniom.

Lembro de umha aluna, antirreintegracionista convicta, mas devota de Castelao, ter-me confessado que se sentia desconsolada ao ler o Sempre en Galiza e ver que Castelao era reintegracionista… Enfim, o próprio Rodrigues Lapa, já 40 anos antes, em 1933, se tinha pronunciado sobre a substancial unidade galego-luso-brasileira e sobre a necessidade de umha ortografia no essencial comum.

No ano 1980 Carvalho Calero é nomeado presidente da Comissom para elaborar um padrom escrito do galego, sob a encomenda da Junta pré-autonómica. O secretário dessa Comissom é, precisamente, José Luís Rodríguez. Há quem diga que o processo de padronizaçom da nossa língua em finais de 70 e começos de 80 dava para umha intensa ficçom cinematográfica. Ora, era possível um final diferente do que acabou por ser?

A “questione della lingua” nessa época era, com efeito, algo muito vivo, mas o pior foi que, com o fracasso das Normas propostas pola Comissom de que se fala, se perdeu de facto o diálogo entre as duas correntes que se fôrom conformando a partir da proposta de Rodrigues Lapa de 1973. Diálogo substituído pola desqualificaçom, o ex-abrupto ou, simplesmente, o silêncio. Capacidade de diálogo que nunca se deveu ter perdido, mas, enfim, cada pau que terme da sua vela, como popularmente se di.

No seu gabinete da antiga Faculdade de Filologia, hoje de Filosofia.

No seu gabinete da antiga Faculdade de Filologia, hoje de Filosofia.

E claro que podia ter sido de outra maneira! Se as Normas de 80, emanadas dessa Comissom, nom fossem desautorizadas como forom, e se apesar (?) da sua flexibilidade tivessem sido admitidas como ponto de encontro, pois poderíamos ter caminhado juntos acompanhando a aventura do idioma, ou qualquer outro episódio poderia ter surgido, quem sabe?, que provocasse novos conflitos. A realidade é a que temos, e sobre a qual há que trabalhar para achar pontos de concórdia que permitam avançar com o máximo consenso possível.

A AGAL surge como umha resposta ao Decreto Filgueira-Valverde. Qual era o motor, ou o combustível das pessoas que criaram a associaçom em 1981?

É umha boa pergunta! Para começar, eu diria que a AGAL surgiu como umha resposta ao Decreto Filgueira, claro que sim, mas também como umha necessidade perentória de auto-organizaçom num momento em que, jubilado o Prof. Carvalho Calero (1980), o reintegracionismo ficava sem a Cátedra que ele regia, plataforma de primeira ordem, que ia passar a maos contrárias. Entom, cônscios de que a uniom podia fazer a força, a AGAL apareceu-se-nos como um lugar de encontro para os simpatizantes do reintegracionismo, e um baluarte para defender as posiçons que paulatinamente se iam ganhando. Desculpe-se-me a linguagem bélica. O combustível que nos movia, o ideal que nos ativava, era a nossa concepçom do idioma, um idioma extenso e útil, que por nada queríamos ver minorizado. A norma dita oficial, na opiniom do nosso grupo, queria consagrar a rutura com o espaço luso-brasileiro, numha viagem sem volta atrás, que nom podíamos aceitar nunca, polo menos sem luitar, sem fazer valer as nossas armas. (Continua a linguagem militar, paciência).

A AGAL surgiu como umha resposta ao Decreto Filgueira, claro que sim, mas também como umha necessidade perentória de auto-organizaçom num momento em que, jubilado o Prof. Carvalho Calero (1980), o reintegracionismo ficava sem a Cátedra que ele regia, plataforma de primeira ordem, que ia passar a maos contrárias.

Como observas a evoluçom do reintegracionismo no século XXI? Julgas que há caminhos que restam por transitar? Quais pensas serem os que dam mais retorno?

Nos vinte anos que levamos deste século, nom encontro grandes variaçons com respeito ao final do anterior. Creio que o reintegracionismo está bastante estendido na sociedade, quer dizer, na sociedade galega que se preocupa polo idioma, nom na parte da sociedade que se marimba do galego. O reintegracionismo parece-me que já nom assusta ninguém e é mesmo aceite por muitos como razoável “sotto voce”. Outra cousa diferente som as esferas de decisom do poder, político e lingüístico, aonde nom chegam, ou nom deixam chegar, os reintegracionistas. Haverá que continuar dialogando, tentando convencer das bondades do reintegracionismo.

Caminhos que restem por transitar? Sempre há, e todos ajudam, para evitar que o galego vaia definhando pouco a pouco. Pessoalmente, creio que a nossa mensagem nom chega como deveria ao grande público. Os livros que publicamos, por exemplo, nom estám, ou estám minimamente, nas livrarias. Deveríamos antepor a difusom da nossa mensagem aos pretensos benefícios económicos e, mesmo que gratuitamente, fazer chegar as nossas publicaçons aos centros de ensino, às bibliotecas, às academias, à associaçom de escritores, aos partidos políticos, enfim, às entidades que constroem e constituem o País. Julgo que seria altamente produtivo.

Já para concluir, caro José Luís, vamos falar do futuro próximo da nossa língua. A estratégia do galego dito oficial consistiu em estrangeirar a língua das sociedades portuguesa e brasileira. Os resultados estám muito aquém do desejável. Qual seria o teu desejo e que achas realmente que vai suceder nos próximos anos relativamente ao galego?

A situaçom é delicada, e os detentores da oficialidade lingüística parecem ter abdicado já da sua missom de salvar o idioma, parecem ter-se resignado ao seu paulatino esmorecimento. Por favor, que deixem ensaiar com outras terapias para tentar devolver a saúde ao doente.

O que vai suceder ao certo ninguém sabe. A curto prazo, afigura-se-me que o galego vai continuar perdendo falantes e mais falantes. Se esta tendência nom digo já parar, mas inverter-se, enfim, se esta tendência nom se inverter e as novas incorporaçons nom começam a superar os abandonos, o futuro será a desapariçom, matizando o castelhano regional de cá com traços de tipo substratístico. O meu desejo nom é este, evidentemente, mas que o galego se converta na língua normal, quer dizer, usual da Galiza, o que nom implica nom conhecer individualmente outras línguas, a começar polo castelhano, tam próximo em tantos aspetos, e ao mesmo tempo que esse galego “se confunda” com o português, como era o anseio de Castelao, e atinja, como o castelhano, a condiçom de língua global, que por origem e graças à expansom lusa lhe corresponde. Umha língua de presente. E umha língua para o futuro. Os galegos temos um autêntico capital lingüístico, que nom aproveitamos, que nom parece querermos aproveitar. Um capital lingüístico e económico, pois compartilhar umha língua gera afetos permanentes, que propiciam relacionamentos de todo o tipo sempre mais fáceis e espontâneos. Um tesouro de que outros quereriam dispor.