Óscar Senra: “Aposto um vinho a que não encontras uma história similar a esta” 2 Outubro, 2020 – Publicado em: Através da Língua, Entrevistas

Óscar Senra vém de publicar Sete dias com Elisa  e Vítor Giadás, da Através Editora, fala com ele para debulhar alguma das chaves do livro e a sua contorna, como por exemplo a relação com o livro anterior do Óscar, Dixie em Wonderland ou a ideia dum romance policial no rural que conta a história da Elisa mas não só.

O “Sete dias com Elisa” é um livro em que as personagens vão mostrando a história a partir da sua posição mas tudo gira ao redor da Elisa. É um livro com um protagonismo claro ou é coral?

Elisa é a grande protagonista, daí que o título a referencie em exclusiva. Foi ela quem me confessou todos os seus processos interiores, as suas vivências presentes e passadas, em resumo, a amálgama de emoções com que convive. Amália também tem um protagonismo especial, mui relevante, mas algo menos íntimo.

Ainda que muito menor que em Dixie em Wonderland, este livro tem também esse ponto de ‘coralidade’, porque preciso de sair a cada pouco do fio principal, para evitar afogar nele e ganhar desse jeito novas perspetivas da história e doutras pessoas e realidades. Damlami, emigrante nigeriano, aí é fundamental, o livro seria mui diferente sem ele.

Aparece o Dixie Fredberg do teu romance anterior na Através Editora, “Dixie em Wonderland”. Mas fica fora da vista da maior parte das personagens. É intencional este “fora de campo” da personagem mais urbana do romance?

Dixie é uma parte de mim, que aparece e desaparece à vontade. Às vezes toma todo o protagonismo e é essa parte quem escreve, a valente, a quem não tem medo. Por isso é quem assina Dixie em Wonderland. O meu caráter é normalmente mais retraído. Eu tinha pensado escrever a continuação das aventuras que tivo até agora com a sua colega Pixie, mas Dixie opinou diferente: o necessário para nós era contar a história da sua mãe, Elisa, grande urbanita, como o filho, que após a reforma se converte em neorrural.

Respondendo à pergunta, não é intencional esse “fora de campo” de Dixie, eu diria que irrompeu na narração sem pedir licença. Com a aquiescência da mãe.

Falando do campo e a cidade, o teu romance quebra a tradição do romance galego, de corte urbano e de protagonismo masculino, colocando a duas mulheres do rural como protagonistas. O rural não aparece romantizado e não é apenas um decorado para o que acontece. Crês que há possibilidade para o rural no romance galego?

Há possibilidade em muitas outras literaturas, portanto acho que há também na nossa. Como recente e valioso exemplo aí temos o romance Tempo Tardade, de Raquel Miragaia, altamente recomendável.

Já fico aborrecido só de pensar-me criando um romance de corte urbano e de protagonismo masculino convencional, seria um exercício pouco interessante para mim como pessoa que escreve, e acho que também para o mundo. Não quer isso dizer que despreze esse tipo de obras, nem muito menos, só que não sinto que eu, literariamente, da minha experiência como homem branco ocidental de quarenta e tantos anos, tenha grande cousa nova com que contribuir a outras pessoas.

Já fico aborrecido só de pensar-me criando um romance de corte urbano e de protagonismo masculino convencional, seria um exercício pouco interessante para mim como pessoa que escreve, e acho que também para o mundo.

Gostaria de que o meu contributo chegue doutros lados, ou isso tento. O exercício da empatia como forma de procura, aprendizagem e superação pessoal, dá em parte origem a Sete dias com Elisa, neste caso é esse o processo que me animou a partilhar este romance com a Através. Aproveito para agradecer à editora o seu trabalho e confiança, e a Miguel Durán o desenho dessa capa tão linda.

O eixo que estrutura o livro é a relação de Elisa e Amália, duas personagens que se relacionam de forma distinta com a aldeia e coa vida em geral. Porque contar a história destas duas personagens a partir das suas visões próprias da história? São duas visões distintas?

Ainda que Elisa é o cerne e origem do romance, as aventuras narradas só são possíveis graças à sua relação com Amália. Conhecer ambas as visões penso que ajuda a compreender melhor o devir da história, para além de enriquecê-la.

Elisa e Amália encontram-se nas emoções, nos cuidados e no respeito mútuo, superando assim as suas diferenças.

A história de fundo é a dum delito. Delito que é contado a partir da polifonia e com estrutura cronológica linear, uma estrutura singela, mas entretecida polo tempo que vai passando. Consideras o tempo um fator mais do romance e da narração do delito?

O tempo mesmo forma parte do título. Não se trata de uma semana qualquer na vida de alguém, são sete dias intensos na vida de Elisa, uma mulher de sessenta e nove anos que até essa segunda-feira se entretinha procurando o sentido da palavra ‘felicidade’. O tempo é linear na história porque o passou a ser também na vida de Elisa, ela dá-se conta e sabe que algo deve mudar. E muda.

Não tenho tão claro isso de que a estrutura cronológica linear seja “singela”. Nessa estrutura ganha muita relevância a velocidade da narração segundo a ação de cada momento, e não penses que é fácil endireitar o volante nesses casos! (risos)

Que dirias a alguém que não pegou no “Dixie em Wonderland” para que apanhe o “Sete dias com Elisa”?

Animo-te a ler Sete dias com Elisa porque acho que é diferente, mesmo aposto um vinho a que não encontras uma história similar a esta. A risco de arruinar-me, fago a mesma aposta sobre Dixie em Wonderland. Sendo livros mui díspares, pertencem ao mesmo universo.

 

[Esta entrevista foi publicada originariamente no PGL]